segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Quando o lírico vence o épico

Finalmente tomei vergonha na cara e li “Romanceiro da Inconfidência” de Cecília Meireles. Fiz um trabalho sobre ela na faculdade durante mais de dois anos e, ainda sim, não havia lido seu mais famoso livro, que a colocou dentre os melhores poetas de língua portuguesa.
Esse livro, diferentemente dos outros, como “Viagem”, “Vaga Música”, “Mar Absoluto”, é composto de diversos poemas que montam uma história só. Ou seja, os poemas podem ser sim independentes, mas, quando lidos num todo, nos narram um dos grandes atos históricos brasileiros: a Inconfidência Mineira. Algo semelhante é feito dentro da obra dela com seu livro póstumo “Cânticos”, que é composto de 26 poemas que fazem uma elegia e incríveis discussões sobre a morte; entretanto neste aqui não há uma narrativa, já que todos os poemas são apenas líricos, mas que retomam ideias uns dos outros e dialogam entre si.
Portanto, melhor começar definindo o que é lírica e o que é épica, dois gêneros que supostamente não deveriam se misturar na literatura clássica. O gênero lírico se incumbe de expressar sentimentos, por isso é mais abundante na poesia, temos nele apenas uma voz que fala como se sente ou define um sentimento através de imagens; já o épico propõe narrativas, ou seja, contação de história, com personagens, ação, tempo, espaço etc. “Romanceiro”, como o nome já diz, se propõe a fazer o que um romance faz: narrar uma história, mas não como um cancioneiro – através do canto, da música -, mas através da escrita, tornando-se épico, assim. Porém o enredo todo é organizado e nos apresentado sob uma óptica crítica e extremamente sentimental, ou seja, lírica.
Nosso narrador é apaixonado pelos personagens Tiradentes, Gonzaga, Alvarenga; e se mostra desiludido com nosso delator. Talvez por isso se esquece de narrar os fatos em si, cronologicamente, descrevendo as cenas propriamente, pois foca apenas no que o bêbado da esquina sentia, na história do carrasco, na noiva apaixonada que ficou por casar, na ganância humana etc. Vemos a história como que “de cima”, sobrevoando os cenários e adentrando a corações sem conseguir mesmo ver a história ocorrer, por isso julgo necessário que o leitor deste livro conheça o mínimo sobre a Inconfidência para poder aproveitar a obra de Cecília.
Apesar de “Romanceiro” já quebrar as regras esperadas de si misturando gêneros, o livro vai além, pois impõe uma crítica muito interessante à nossa nobreza, representada pela rainha, que se via de mãos atadas por fazer justiça já que era louca, mas mesmo assim rainha (?). Crítica também à população que era sim descontente com as cobranças, violência e altos impostos provenientes de Portugal, mas que em nada ajudou a revolução, e que, na verdade, quase que a traiu ao ir assistir aos enforcamentos e aplaudir como se fosse uma festa. Mas crítica maior mesmo é ao ouro, sim, nosso grande culpado, de acordo com Cecília, que causou ganância em todos, motivo único da nossa luta e da delação.
O livro é de uma sensibilidade incrível, que parece música em certos trechos. Em versos curtos, redondilhos em grande parte, rimados mesmo que desordenadamente e com coros, seja dos anjos ou da população, a autora nos mostra uma nova visão da primeira tentativa do Brasil de se fazer independente. Cecília se baseou mais nas cartas, nos depoimentos pessoais e na história oral, do que na grande pesquisa de cunho histórico que também fez ao longo de mais de três anos. Pensou mais dos dissabores, nos amores, nos interesses, do que nas ações, pois essas são apenas meros reflexos de vontades mais complexas.

A edição comemorativa de 60 anos é muito indicada. Traz textos teóricos, críticas literárias, depoimento da própria Cecília sobre a escrita do livro e muitas fotos da autora passeando por Ouro Preto. De capa dura e muito bem caprichada, é muito atrativa além de eficaz.
Escrito por Nathália Mondo Data: 8/18/2014 01:31:00 PM Comente!

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