segunda-feira, 15 de dezembro de 2014


Historieta de muitas verdades

Sabe aquela sensação de já li isso em algum lugar? Tive isso duas vezes ao ler “O velho e o mar”, de Ernest Hemingway. A primeira foi a mais absurda, quando já estava lá pela página 60 de uma novela de 110, pois me caiu a ficha de já tinha efetivamente lido este livro durante a faculdade. Mas só a presença dos tubarões tão justos em sua natureza e tão imorais frente à história me despertaram a atenção e a memória. Como podia ter me esquecido do sofrimento de Santiago?
Mas foi essa tristeza que me proporcionou a vida do personagem, sua obstinação em cumprir uma missão para ele já quase impossível, que o levou quase à morte, à loucura, que me fizeram sentir outro “click” na memória. Santiago por motivos diferentes e com menos intensidade esbarra no capitão Ahab. O primeiro persegue seu peixe quase ao esgotar de suas forças por honra, por fome, para manter a tradição, parasse provar, para perder o azar, para ensinar o menino, para calar a boca de todos aqueles que riam dele. O segundo ama e odeia sua baleia a tal ponto que todos os motivos nobres que servem a Santiago se tornaram pura e vazia obsessão.
Esse desejo do pescador em “O velho e o mar” é atenuado até pela linguagem utilizada, que lembra Graciliano. O personagem é pobre, velho, que ganhou educação da própria vida e que é mais voltada ao mar do que às letras. As frases do narrador são curtas, suas palavras são repetitivas, seus pensamentos são curtos – apesar de nunca rasos. A pequenez da linguagem transforma o que é loucura em um em necessidade ao outro.
Lindo livro. Com uma bela imagem do mar criada pelo autor. Deixo um trecho para os amantes de ambos.
“O velho pensava sempre no mar como sendo la mar, que é como lhe chamam em espanhol quando verdadeiramente o querem bem. Às vezes aqueles que o amam lhe dão nomes vulgares, mas sempre como se fosse uma mulher. Alguns dos pescadores mais novos, aqueles que usam boias como flutuadores para suas linhas e têm barcos a motor, comprados quando os fígados dos tubarões valiam muito dinheiro, ao falarem do mar dizem el mar, que é masculino. Fala do mar como de um adversário, de um lugar ou mesmo de um inimigo. Entretanto, o velho pescador pensava sempre no mar no feminino e como se fosse uma coisa que concedesse ou negasse grandes favores; mas se o mar praticasse selvagerias ou crueldades era só porque não podia evita-lo. ‘A lua afeta o mar tal como afeta as mulheres’, refletiu o velho.”


Escrito por Nathália Mondo Data: 12/15/2014 02:33:00 PM Comente!

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