quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015


Tudo tem limite

            “Outra volta do parafuso” ou “A volta do parafuso”, mesmo livro, muitos nomes, é um daqueles clássicos que você nunca diz que está lendo pela primeira vez, e sim que está relendo, de tão conhecido e aclamado que é. Acho que por esse motivo cheguei a ele com uma percepção já formada, sabendo o que iria achar.
            Este é um dos primeiros livros de suspense; ele apresenta o gênero para o mundo, por consequência, ainda não o tem aprimorado, mas boa parte das técnicas depois usadas por grandes autores como Stephen King e Agatha Christie estão lá.
            O livro é mais uma novela que um romance pela sua pequena extensão, mas já consegue criar muito bem o clima de tensão necessário a qualquer história de suspense. Há uma babá solitária, crianças que parecem boazinhas demais, fantasmas, uma empregada pouco inteligente, um tio que nunca aparece, um mistério no ar sobre a expulsão do menino mais velho da escola e sobre a morte de dois antigos funcionários. E tudo se passa numa mansão gigantesca, cheia de torres e ameias, bem no meio do campo, longe de tudo.
            Mas o que me prendeu de verdade, e o que eu já sabia que seria meu ponto principal de análise desde o começo, foi o foco narrativo. Pelo texto ser escrito em primeira pessoa, seria impossível não desconfiar da narradora. É incrível como toda cena de suspense tem sempre dois pontos de vista: 1. Há um fantasma por ali mesmo, que ela e todos veem, mas ninguém quer tocar no assunto por ser assustador demais; 2. A narradora é louca e só ela enxerga o que não existe de verdade. Esse clima é demais. Mas tudo tem limite. Achei que muitas cenas soaram repetitivas, óbvias, previsíveis. E muitos mistérios ficaram pendurados sem necessidade. Não me apeteceu, como diria minha avó.
            O que vale a pena ser levado em conta mesmo é o cenário social em que o enredo se constrói. Estamos falando da relação entre uma babá pobre, criando e educando duas crianças ricas. Porém, apesar de sua função e maior idade, ela se submete aos jovens o tempo todo, por medo, por necessidade social. O respeito e as opressões a impedem de educar efetivamente as crianças, controlá-las e de descobrir o mistério no final por não poder encará-las e confrontá-las. Senti mais medo pela narradora por conta dos seus patrõezinhos despóticos do que dos fantasmas em si. Incrível como o mundo dos vivos pode ser mais assustador que o dos mortos. Viva a sociedade!


Escrito por Nathália Mondo Data: 2/11/2015 08:11:00 PM 2 comentários

2 comentários:

  1. Amei a resenha Nath. Incrível como esses livros nos fazem ficar tenso com sua narrativa.
    Abraços.

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  2. Daí eu penso se os autores usam como ferramenta criativa para textos com tema sobrenatural o homem e como ele age . Criando a partir das horríveis ações do homem , personagens sobrenaturais , que nos parece bem reais muitas as vezes .

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