domingo, 4 de janeiro de 2015


Não entendi a piada

            Essa foi a sensação ao ler “A passagem tensa dos corpos”. Estava empolgada demais com a sinopse e algumas críticas de divulgação do livro. Aí fiz o romance furar a fila que já tinha estipulado para matar logo a curiosidade. E acho que não entendi muito bem qual foi a piada contada. Tive aquela sensação de chegar ao final e continuar virando as páginas procurando mais alguma frasezinha sequer que me explicasse umas mil perguntas que tenho, mas não. Acabou mesmo.
            O livro não é ruim. A proposta é boa. Há um ser/fantasma/espírito/et/entidade/xis que narra a história e essa coisa relata, quase que coleciona, mortes. Ele as assiste às vezes, ou só narra a cerimônia de desligamento do morto com a família e todos que o cercam seja num enterro, cremação, velório etc. Essa coisa que narra a história parece ser composta apenas de uma língua, pronta a narrar as mortes a seu redor e acompanhamos a última a que ela se propôs a assistir.
            Por que é a última, por que nessa cidade de Minas específica, por que essa família, por que a coisa faz isso são perguntas que se respondem ao longo da narrativa, quando aprendemos não só sobre a família e morte do defunto último, como também sobre as características do narrador-coisa. Mas aí é que empaquei, porque a proposta de enredo é muito boa e muitas perguntas sim são respondidas, mas outras ficam no ar. O próprio final fica no ar. O enredo não foi plenamente desenvolvido. Pois misturou o surreal com o mundo de verdade, mas extrapolou algumas linhas. Em “A espuma dos dias” o expressionismo, surrealismo estão nos locais certos, com as funções certas. Já neste livro aqui, achei que o sobrenatural deveria ter permanecido no narrador, mais foi além na história de sua vida e também no casamento sem noivo nunca realizado da filha do defunto. Não fez sentido. Tudo bem que contribui para a aura de perturbação do livro, que é impagável. Nunca vi um livro me prender tanto numa atmosfera tão incômoda quanto esta. Mas ele poderia ter explicado algumas pequenas coisas, como quem matou o defunto, o que o filho do defunto faz e o porquê faz e onde vai parar, o que ocorrerá com a filha e com a esposa do defunto, e com o próprio defunto e com o narrador-coisa..... ahhhhhhh!!! Que raiva!
            Ok. O enredo não me agradou pelos fios deixados soltos. Talvez não os tenha entendido mesmo. Mas a forma é simplesmente linda. É uma prosa misturada com poesia, pois as frases e parágrafos se quebram como versos. Há ritmo. Há construções poemáticas em forma e em significação. Há imagens impagáveis. Há choque entre o erudito e o pornográfico. Entre o profundo e o ridículo. Entre o crível e o irreal. Entre o nojo e o romântico. Principalmente no que concerne aos desejos dessa língua em fazer poesia, experimentar sabores e lamber as partes internas da cocha suada da viúva (???). Pois é.

            Acho que gostei do livro. Mas acho que não entendi. Alguém me dá um help! Gostaria que houvesse uma continuação. Quero resposta pras minhas perguntas.
Escrito por Nathália Mondo Data: 1/04/2015 03:16:00 PM 4 comentários

4 comentários:

  1. Esse livro é tão confuso assim? Ai Nath, mais um que você me deixa na curiosidade de comprar só pra ver se ficaria com essa mesma dúvida. Ótima resenha , mesmo sendo de um livro tão "estranho", haha.
    Sucesso
    www.chamandoumleitor.blogspot.com.br

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  2. Olha... esse aqui me deixou boiando na maionese MESMO. hahaha...
    Mas gostei! Muito! As descrições e alguma imagens são impagáveis!
    Leia leia leia!
    Bjinhus

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  3. Nathália, quem escreve é o Carlos de Brito e Mello. Mandei uma mensagem para você nesta mesma seção de comentários, cumprimentando pelo video e pela crítica que fez de "A passagem tensa dos corpos". Adorei. Essa é a leitura que mais me interessa: aquela capaz de produzir, de fato, uma experiência. Um abraço, obrigado e até.

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    Respostas
    1. Fiquei extremamente feliz com seu comentário! Sorri genuinamente! Muito bom poder conversar com alguém que escreve tão bem e de uma maneira tão bonita, tão única e tão perturbadora. Adorei o livro, mesmo talvez não tendo entendido a piada plenamente - como eu mesma já escrevi. Mas a experiência do desespero, do incômodo foram indescritíveis ao lê-lo. Estou com muita vontade de ler seus outros romances, já recebi indicações de amigas que estão te lendo e pretendo fazê-lo em breve! Até agora estou tentando imaginar o noivo da filha iludida e quem realmente assassinou o homem!
      Que bom que gostou da resenha e do vídeo! Fico muito feliz!
      Um grande beijo!

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