domingo, 27 de julho de 2014

A mágica de fazer poesia em prosa

DIA 5
E achei, graças às forças divinas, mais um livro que me lavou a alma. Pretendia ler “A desumanização” em um único dia, por não ter mais que 200 páginas, mas foi impossível devido à complexidade das imagens e das propostas criativas do escritor. Senti que a cada dez ou quinze páginas eu era obrigada a interromper a leitura para sentar na cama e pensar. E pensar. E pensar.
É bonito ver como alguns conseguem adivinhar no mundo aquilo que é universal, aquilo que toca qualquer ser humano independente de suas vivências únicas. Não importa que o enredo se passe num vilarejo extremamente frio de pescadores e criadores de ovelhas. Pouco se lembra de que é uma menina, de dez anos, que narra a história. As palavras de Valter Hugo Mãe transcendem. A obra é completa. Suas descrições são palpáveis como se o livro fosse ilustrado. A trilha sonora composta pelo mar, pelos pensamentos de Halla e pelo órgão que finalmente volta a tocar na aldeia são quase que ofuscadas pela musicalidade constante do que se construiu prosa, mas que esconde poesia. Há tema, forma, enredo de uma maestria que só constroem beleza.
Perder uma irmã gêmea com quem se tinha mais do que afinidade, mas conexão física e espiritual, já é assunto suficiente para interessar o leitor, ao acompanhar os pequenos detalhes, simbologias e conversas que as garotas trocavam. Mas mais forte ainda é ver como a violência da natureza em nos tirar o que temos de mais precioso no mundo faz crescer – não sei ao certo ainda se poderia usar o termo “desenvolver” – mais rápido e com mais força o intelecto e o físico de uma jovem que, só quando ela nos lembra ter apenas 10, 11, 12, 13 anos, nos faz vê-la como tal, pois suas falas são fortes, sua coragem é muita e seu modo de ver o mundo é único.
Acho que desde Lispector, Coetzee, Garcia Márquez e Tony Morrison não me sentia tão leve assim. E tão triste assim.

São imagens como a criança-bonsai enfiando o mindinho na terra para se conectar com a irmã plantada, as ovelhas-nuvens descendo a colina para procurar abrigo, e a menstruação como sangue triste do fado das mulheres, que me dão vontade de reler o livro, ao mesmo tempo que nunca mais quero lê-lo, para não macular aquilo que o amor à primeira vista construiu de perfeito.
Escrito por Nathália Mondo Data: 7/27/2014 05:12:00 PM 11 comentários

11 comentários:

  1. Esse post me deixou triste por não ter aproveitado a promoção da Cosac Naify. Estou louca para adquirir este livro e fico resistindo bravamente ao desejo de comprá-lo, mas depois de ler esta resenha, não tem como não ser tomada pelo arrependimento. Tenho certeza que este post foi tão bom quanto o livro. Foi bem poético e amoroso. :)

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    1. Até agora só escutei comentários positivos sobre esse escritor, e sobre vários livros, então não se sinta mal... compre o livro mesmo assim, mesmo pagando a mais, porque, quando o fulano é bom, ele tem que ser reconhecido e receber por isso... Vale a pena! A resenha foi mais melodramática do que o normal, mas o livro mexeu comigo mesmo...

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  2. Vi você falar sobre esse livro no vlog e, na hora, já o adicionei na minha lista de Para Ler. Agora, com a resenha, deveria criar uma lista de "Para Ler o Mais Rápido Possível" e colocá-lo lá. Ansiosa para ler A Desumanização. <3

    http://ternatormenta.blogspot.com/

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    1. hahauhau... Por favor, quando ler, venha conversar comigo! Amei o livro e espero que vc goste muito! E entendo o desespero por MUITOS livros na lista... vc nem imagina o tamanho da minha...

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  3. Comprei esse livro no início do mês, mas ainda não li. Mas já vi que não posso adiar muito essa leitura, estou querendo ter essa sensação leve também. :D
    beijos!

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    1. Jeniffer, é bom demais! Leia e vamos conversar!!!

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  4. Vi o seu vídeo sobre "a desumanização" e não resisti: tive que trazê-lo pra minha estante na primeira oportunidade! haha

    Do Valter Hugo Mãe li apenas "O filho de mil Homens" e fiquei encantada. Abraços :-)

    http://antidotoliterario.wordpress.com/

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    1. OMG! Eu causando gastos às pessoas! hahahah... E aí? Gostou do livro? Foi lucro ou prejuízo? Bjinhusss

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  5. Esse foi o ano em que eu mais ouvi falar do valter hugo mãe, porém não li nada. Tô em dúvida se compro "a desumanização" ou "a máquina de fazer espanhóis", sos.

    Beijos

    http://probablygreen.wordpress.com/

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    1. Eferim, eu até agora só li o primeiro dele, mas o segundo que vc citou é mais famosos. Estou com outros dois dele aqui pra ler e espero poder mexer neles logo logo.
      Bjinhus

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  6. Como você interpreta o título do livro? Principalmente no começo do livro a narradora fala sobre a relação entre as pessoas como sendo aquilo que cria a nossa humanidade, através das palavras, do contato. Seria "a desumanização" criada pelos traumas que acontecem com a narradora e com o Einar, mudando sua relação consigo mesmos e com os outros? Do Einar em se perder em seus pensamentos, da mãe da Halla destruída pela perda da filha? Criando assim uma desumanização, o contrário dos ditos "sentimentos nobres" citados no livro?

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