quarta-feira, 16 de julho de 2014

Uma coisa chamada “criatividade”

O livro “Cidade dos Ossos” é o primeiro volume de uma saga enorme, que ainda não acabou de ser lançada, chamada “Os instrumentos mortais”. Neste romance, somos apresentados a um mundo fantástico e a personagens nem tão fantásticas assim.
Primeiro, descobre-se no livro que o nosso mundo é, na verdade, habitado também por criaturas descendentes dos demônios – vampiros, lobisomens e afins - e por seres escolhidos e privilegiados pelos anjos – os Caçadores de Sombras -, e ambos disputam esse nosso universo e nossas vidas mundanas num grande cabo de guerra. Como todo esse mundo é novo para o leitor e para a protagonista, espera-se que ele seja explicado aos detalhes e com muita paciência já que não temos a obrigação de compreendê-lo previamente. Mas as descrições e narrativas que deveriam desnudar esse universo para nós parecem feitas com pressa, como se a escritora, único ser no planeta que conhece essa história aos detalhes, estivesse de saco cheio de falar sobre o assunto que só pra ela é óbvio. Muitas regras não são explicadas com clareza, informações ficam implícitas, ou só são ditas quando você já está confuso, sem entender nada há umas 20 paginas, no meio da batalha do século.
O problema da escritora não para por aí, pois os diálogos, além da narrativa, também são caóticos. Cassandra Clare não sabe ser onisciente nem fazer discurso indireto livre. Há muitas falas seguidas entre personagens diferentes e você nunca sabe quem está falando o quê, porque a autora se esquece de nos avisar. Ou o assunto do diálogo é trocado aleatoriamente, porque você não conhece nem as personagens nem o mundo deles direito, e fica se sentindo no meio de uma pintura dadaísta.
Daí temos que as personagens também não são lá aquelas coisas em termos de construção e verossimilhança. A Clary, nossa protagonista, é mais sem caráter que a Bela do “Crepúsculo”, mas não por ser malvada, mas por não ter consistência. A Bela, pelo menos, é uma songa-monga o livro todo, mas a Clary não; tem horas que ela é valente, outras um coxinha, outras ela é engraçada, outras uma boba. E sempre nas horas erradas! Há o momento para ela ser boba, mas NÃO, ela quer ser engraçada e faz a piada no meio de uma perseguição, em que 1437 vampiros estão correndo atrás dela. Ou ela podia ser fofa e meiga, mas ela resolve dar um soco na cara no mocinho aleatoriamente. OMG! E os outros não fogem muito disso não. O cara mais arrogante do mundo se torna uma borboleta de fofura porque escutou uma mentirinha mal contada pelo vilão; há um personagem gay que não traz complexidade alguma para a história: o homossexualismo não é discutido, ele não faz nada ao longo do livro todo e só a mocinha sabe que ele é gay e sei lá Deus como ela descobriu, pois a escritora – de novo – não nos deu indícios algum.
A única personagem que realmente me agradou foi o Simon, o melhor amigo da Clary, que é mundano e está feliz assim, pois não foi corrompido pela magia. Ele quebra o paradigma mitológico, pois não deixa que a fantasia decida seu destino; ele toma as rédeas da situação e luta contra profecias, mágicas e poderes especiais apenas com sua determinação e caráter. Ele nos dá certa alegria ao vermos que nós, leitores mundanos, temos sim livre arbítrio e direito de decidirmos nosso destino por nós mesmos se quisermos. Nada como fazer uma banana para a “Ilíada” e para “Os Lusíadas” e tomar posse de nossas próprias vidas.
Bom, a historinha é interessante, mas é impossível não detectar uma leve “inspiração”, da qual a escritora se valeu, em cima de "Harry Potter". Há cópias explícitas como: 1. um vilão que deseja fazer uma limpeza de sangue à lá Hitler; 2. o vilão só aceita ser chamado de Lorde; 3. há um pacto de sangue, em que, se a promessa feita for quebrada, a pessoa morre; 4. um menino se transformando em rato (sério... tem tantos bichos no mundo! Papagaios, lagartixas, hipopótamos, ácaros, tigres, minhocas, periquitos...); 5. falas inteiras e até cenas semelhantes.
Fiquei brava. Para se fazer literatura fantástica, você precisa ter uma coisa chamada criatividade, que pressupõe a não necessidade do plágio, pois só sua cabeça dá conta... E ela não pode ser a mesma que se usa para inventar histórias sensacionalistas sobre a Paris Hilton – como a escritora costumava fazer na revista estilo “Titi” em que trabalhava -, um romance com seres mágicos exige um pouco mais.

Só vou ler os outros se ganhar de presente – fica a dica! – e se a autora parar logo de escrever essa série, que toda hora ganha um livro novo; pois ela mesma falou que os personagens não são imortais, então: Chega logo no final, senão vai ficar chato que nem “Smallville”.
Escrito por Nathália Mondo Data: 7/16/2014 11:15:00 AM Comente!

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