quarta-feira, 9 de julho de 2014

      Jurassic Park II – da arte de estragar o primeiro filme

Pois então eu decido quebrar uma de minhas próprias regras. Assistir a uma sequência que não é complemento necessário do filme, como "O Senhor dos Anéis II" e "III" ou X-Man (que tende ao infinito, mas que se propõe a seguir os quadrinhos), mas sim uma tentativa babaca de Hollywood fazer dinheiro com você a custas de um único filme bom. Decidi assistir ao "Jurassic Park II".
Bom, se você não viu o "Jurassic Park" original, eu tenho pena de você. O filme é demais e um grande clássico da década de 90. Ou seja, não tem os efeitos especiais que você bem conhece dos dias de hoje, mas, com o que eles tinham em mãos naquela época, os caras fizeram mais do que o melhor. O filme tem uma história boa, trama complexa o suficiente, discussões inteligentes e personagens bem construídos com suas características únicas. Óbvio que há o pega-pega normal e exagerado dos filmes de ação, mas ainda dentro dos limites do aceitável. "Jurassic Park II" é totalmente o oposto disso.
Não. Você não precisa ter visto o filme I para entender o II. O que já conta como o primeiro absurdo da lista. Isso é uma continuação ou não? Se não, não manche o nome do primeiro filme reutilizando-o para falar de outra coisa. Afinal, não é porque um dos atores – o coadjuvante ainda - reaparece, que é continuação.
Bom, o filme fala sobre uma segunda ilha que também era usada pra criar os dinossauros e da qual ninguém sabia da existência, mesmo já tendo passado quatro anos do desastre na primeira ilha. Como? Independente disso, um grupo de pessoas, incluindo o Malcon, o coadjuvante sobrevivente, é chamado para voltar pra lá fazer uma pesquisa sobre como os dinossauros se adaptaram à ilha no século XX e vivem harmonicamente entre eles. Mas o que não se sabe é que outro grupo também é mandado para lá, só que para capturar alguns dos bichinhos, para levar para o continente, para ser montado um zoológico. Obviamente os dois grupos entrarão em conflito.
Uma menininha é quase morta por esses bichinhos já na primeira cena do filme, o que para mim soou lindo, pois achei que a continuação teria uma “pegada” mais radical ainda que o primeiro. Mas não. Enquanto a mãe grita ao ver a filha ser devorada por minidinossauros, o diretor fez o corte da cena a partir da boca escancarada da mãe com o Malcon no metrô, em frente a uma foto de uma ilha tão paradisíaca quanto à do desespero da mãe, só que bocejando de tédio. Sério, com morte de criancinhas não se brinca e o cara o fez. Aí pensei: legal, não vai ser um filme de ação, então, vai ser meio “Todo Mundo em Pânico”, satirizando o primeiro filme. Só que também não.
Malcon só vai pra ilha porque sua namorada também foi chamada para a pesquisa. Yey, pensei, será um romance. Não também. Porque, logo nas seguintes cenas, os personagens que lá estão para documentar pacificamente a vida dos dinossauros se deparam com os caçadores dos mesmos – o grupo dois –, que tratam de maneira cruel os bichinhos. E, de nerds pesquisadores, as pessoas do primeiro grupo se transformam em Rambos do Green Peace. Tem coisa mais piegas do que um filme que mistura romance, ação, ficção científica, Rambo e a galera verdinha? Avê. Só que o roteirista se esquece disso ao longo do filme, porque um dos defensores da floresta, ao decidir mascar um chiclete no meio de uma fuga de uns dos T-rex (wtf?), ele joga o papel NO CHÃO. Regra número um dos verdinhos é não jogar papel no chão. Se você nem consegue fazer isso, não tente salvar os dinossauros. Eu ri litros nesse momento.
Mas tudo bem, a vida continua e chegam as cenas de ação. E, sério, eu não sei qual é a do Spielberg com vidros. No filme I, duas crianças só sobrevivem ao ataque do T-rex por segurarem com mãos e pés o vidro do teto solar do carro, que os separava da boca do bichinho – cena clássica. No II, a mocinha é lançada em queda livre sobre uma parede de vidro de um trailer, que já havia recebido muitas pancadas de vários objetos pesados e que já estava trincada e... o vidro salva sua vida e só estoura quando uma corda chega para salvá-la. Sério. Onde esses vidros são fabricados? Quero um desses pra minha casa. Avisa logo que a construção começa mês que vem.
Fica pior, porque mais milagres acontecem. Sim, Deus está ao lado dos defensores da floresta. O único modo de a turma sair da ilha é usando uma central desativada há quatro anos para se comunicar via rádio com a galera do continente. Só que toda a selva já penetrou na central e tomou conta de tudo. Se você já alugou apartamento na praia, ou tem uma casa lá, ou se você guarda seus livros e equipamentos eletrônicos e fotográficos em locais muito úmidos, você sabe que é osso mantê-los funcionando. Seu PC novinho, que custou caro, pra continuar vivo por mais de um ano tem que ser bem tratado. Agora imagine um desses, numa ilha na Costa Rica, cercado por uma camada mar e uma de floresta tropical, por quatro anos, sem uso, com mato em cima... Qual a chance? Pro roteirista: 100%.
Absurdo 10000000237: ainda há espaço nesse filme pra machismo. Já se percebe de cara que o filme é maniqueísta: há mocinhos e bandidos bem explícitos e ninguém, digamos, normal, como nós. Além disso, não há complexidade alguma no caráter das personagens, elas são todas previsíveis e planas. Mas o machismo me surpreendeu. Um dos caçadores malvados só foi pra lá capturar um T-rex e é só nisso que ele ajuda. Todas as outras espécies? Os outros que capturem. Mas o careca só quer saber de prender um T-rex MACHO. Uma fêmea não serve pra ele. Burro. Todo mundo sabe que pra um zoológico a fêmea é mais útil por questão da procriação. Não é a toa que comprar um cachorro fêmea é mais caro que um macho. Sem contar que em muitas espécies é a fêmea que caça, portanto ela é mais forte e mais valente. Se o careca achava que ia ser considerado um melhor caçador por capturar um T-rex macho, ele merece um peteleco. Alguém tira a medalhinha de escoteiro dele.
Inverossímil. O filme tem duas horas e ninguém de importante morre ou fica ferido. Nem um pé quebrado, nem sequer uma mancadinha, nenhum bracinho devorado... nada. Que baita medo de matar os protagonistas, hein? Sinto que o roteirista poderia ter umas aulas com o George Martin, ou até com o moço do "Titanic". Poxa vida...
História vai, história vem, os mocinhos sobrevivem chegam em casa naquele famoso helicóptero do filme I, e o tal T-rex - macho - é preso e é levado de navio ao continente. Mas é óbvio que isso ia dar errado e o bichinho come toda a tripulação e sai pilotando o barco em alta velocidade. O barco bate no porto, destrói metade do deck e mata um monte de gente, estilo "Velocidade Máxima". O T-rex escapa e se dirige à cidade. Aí vira "Godzilla", só que misturado a um final que lembra muito o "Rei Leão". E eu me recuso a comentar qualquer outra coisa dessa parte.
Só pra dar uma resposta ao machismo do filme: aposto que, se fosse a T-rex fêmea a ser capturada, ela teria estacionado o navio direitinho.
Bjos
Escrito por Nathália Mondo Data: 7/09/2014 02:23:00 PM Comente!

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